Anderson Araújo/Dol – A 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP 30), que se inicia nesta segunda-feira (10), faz de Belém o palco principal dos grandes debates sobre mudanças climáticas. Mas não só: também transforma definitivamente a capital paraense em porta de entrada para a Amazônia e a submete a um grande teste como cidade apta a sediar megaeventos internacionais. A escolha não é à toa e foi encarada como “grande desafio”, segundo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
“Quando decidimos fazer a COP no Pará, a gente já sabia das condições. Conheço Belém desde 1975 e a gente decidiu fazer aqui porque a gente não queria comodidade, queríamos desafios e queríamos que o mundo viesse conhecer a Amazônia. Hoje eu tenho certeza de que nós vamos fazer a melhor de todas as COPs já realizadas até hoje”, comentou o chefe do Executivo brasileiro.
Como justificativa para a escolha, o presidente destacou que Belém tem “um povo muito alegre, extraordinariamente alegre, com o qual qualquer convidado estrangeiro vai se sentir em casa aqui na cidade de Belém”. “Nós temos (também) uma culinária invejável. Os estrangeiros que estiverem aqui, quando sentarem à mesa e começarem a ver a diversidade da nossa culinária, vão sair daqui muito orgulhosos de ter conhecido a cidade, vão sair daqui um pouquinho mais gordos, porque vão comer bem e vão ser bem tratados”, disse.

A Conferência das Partes (COP) é o órgão decisório da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), responsável por tomar as decisões necessárias para implementar os compromissos assumidos pelos 198 países signatários no combate à mudança do clima. A de Belém tem sido chamada de “COP das Florestas”. Sobre esse apelido, a ministra do Meio Ambiente e das Mudanças Climáticas, Marina Silva, enfatiza que o simbolismo do evento neste ano reside em ser a “COP na floresta”.
Marina explica que sediar a conferência no Pará é também uma “denúncia”. Ela salienta que, embora a proteção florestal seja vital, as emissões geradas pelo uso de carvão, petróleo e gás também precisam ser enfrentadas à altura. Caso contrário, mesmo que o desmatamento seja zerado, “a floresta vai se savanizar do mesmo jeito”. O Brasil trabalha para que Belém seja o ponto de virada e o mundo se engaje para que os discursos se transformem em ações práticas.
Nesta edição, a COP prevê um cronograma intenso de negociações e encontros, com a expectativa de receber mais de 57 mil participantes, incluindo pelo menos 53 chefes de Estado e 46 ministros. Lula estruturou o evento para incluir, sequencialmente, a reunião dos chefes de Estado durante a Cúpula do Clima (realizada nos dias 6 e 7), a cúpula dos negociadores e, por fim, a cúpula da sociedade civil.
“Não queremos que a COP continue sendo uma feira de produtos ideológicos climáticos. Queremos que ela seja muito séria e que as coisas que decidirmos possam ser implementadas”, defendeu Lula, enfatizando também que o Brasil sempre foi um ator decisivo nas negociações multilaterais, o que deve tornar a Conferência em Belém próspera em bons resultados.
Um legado de R$ 6 bilhões para Belém
O governador do Pará, Helder Barbalho, destaca que os investimentos relacionados à COP 30 somam mais de R$ 6 bilhões, aplicados em mais de 30 obras estruturantes. Para ele, a conferência é um marco na história de Belém e consolida a capital como símbolo mundial de sustentabilidade, inovação e desenvolvimento na Amazônia. “Estamos garantindo obras que vão muito além do evento: são investimentos em mobilidade, saneamento, abastecimento de água, macrodrenagem e espaços turísticos que estão transformando a vida das pessoas”, afirmou.
Helder ressalta o valor simbólico, porém o evento tem ganhos materiais com a multidão de visitantes estrangeiros e de outros estados circulando por Belém. Esse movimento todo tem impacto direto na economia local: impulsiona setores como hotelaria, turismo e transporte. Tido como um gargalo que poderia atrapalhar a realização da COP, o desafio da hospedagem desse volume de turistas foi garantido por meio de soluções criativas. Além da ampliação da rede hoteleira, o governo estadual se articulou para mobilizar transatlânticos como hotéis flutuantes, reformou escolas e incentivou o aluguel de temporada.
“Quem quiser hotéis seis estrelas, vai a Dubai. Quem quiser discutir floresta e clima de verdade, vem a Belém do Pará”, brincou o governador, destacando que a conferência será um retrato autêntico da Amazônia.

O ministro das Cidades, Jader Filho, também enfatiza que Belém dará um “salto de 30 anos na sua história” e que as obras são mudanças e reformas estruturais há muito esperadas pela população. O representante do governo federal não esconde o orgulho ao falar sobre sua cidade natal. “Ver Belém recebendo tantos investimentos e melhorias me emociona”, afirma.
Ele destaca que o legado da COP 30 não se limita ao evento em si, mas engloba as obras que estão sendo realizadas para transformar a cidade em um destino turístico internacional, um centro de cultura, gastronomia e história no coração da Amazônia.
Jader Filho lembra que as melhorias vêm de uma combinação de investimentos federais, estaduais e privados. Entre as novidades, hotéis de alto padrão e a modernização do aeroporto são exemplos de como a cidade está se preparando para se destacar neste novo cenário.
O ministro também destacou novos equipamentos públicos, como o novo Museu das Amazônias, que expõe a arte e a cultura não apenas do bioma situado em território brasileiro, mas também em outros países da América do Sul. Para ele, esse tipo de estrutura proporciona a promoção do conhecimento sobre a biodiversidade da floresta e dos povos que nela vivem. “É a primeira vez que vamos ter um espaço dedicado a toda a Amazônia, e as pessoas vão poder conhecer a verdadeira dimensão dessa região”, explica.
O impacto nas periferias
Embora boa parte das obras de infraestrutura se concentre em áreas centrais de Belém, como o Mercado de São Brás e os parques lineares da Doca de Souza Franco e da Tamandaré, Jader Filho reflete sobre a importância de os investimentos terem alcançado também os bairros da periferia.
“Belém não é só o centro. Estamos investindo em obras de drenagem, macrodrenagem e saneamento, e isso vai transformar a vida de milhares de pessoas na cidade”, comenta, enfatizando que o legado da COP será visível tanto em regiões tidas como turísticas quanto nas áreas mais distantes.

Outro problema enfrentado com os investimentos da COP foi o da mobilidade urbana. A cidade ganhou novas vias e passou por uma revitalização do transporte público, com 265 novos ônibus, além das obras do BRT e a inauguração do BRT Metropolitano, que facilita o acesso ao Parque da Cidade, onde se concentram muitos eventos da 30ª. “O BRT será um dos maiores legados da conferência, conectando o aeroporto ao centro da cidade e permitindo que turistas e moradores se locomovam com mais conforto e eficiência”, explica Jader Filho.
Outro ponto importante que a COP possibilitou a Belém foi a expansão da mobilidade fluvial, indo ao encontro da vocação da cidade cercada por rios — marca de sua paisagem — usados diariamente por seus moradores. Os recursos relacionados à conferência trouxeram novos terminais, como o terminal hidroviário de Belém, que favorece o acesso de turistas e comerciantes às ilhas e comunidades ribeirinhas, além de fomentar o turismo de cruzeiros.
“Não há obra que dispute com a recepção calorosa do povo do Pará. A nossa culinária, música e dança são inigualáveis”, reforça Jader. A valorização do turismo é um ponto crucial, mas a preparação da população local também está sendo cuidada. “Investimos em treinamentos, na criação da primeira escola do turismo do Brasil e em cursos de inglês para que a população se preparasse para receber turistas de diversas partes do mundo”, comentou.
Infraestrutura e sustentabilidade
O governo federal, em parceria com o governo estadual e a iniciativa privada, está promovendo uma verdadeira revolução na infraestrutura de Belém. Obras de drenagem e saneamento, como a estação de tratamento de esgoto do Una e melhorias no sistema de esgoto da Feira do Ver-o-Peso, impactam diretamente a qualidade de vida da população. “Essas obras estavam paralisadas e conseguimos retomar o ritmo de trabalho, garantindo que mais de 100 mil pessoas sejam beneficiadas”, destacou o ministro.Além disso, o governo federal investe fortemente na prevenção de desastres naturais. O programa de macrodrenagem e contenção de encostas está em andamento, com a construção de novas bacias de contenção e drenagem. “São obras que vão garantir a segurança das famílias nas áreas mais vulneráveis”, explicou Jader Filho.
Para o ministro, as melhorias estruturais que estão sendo implementadas vão transformar Belém em uma cidade mais conectada, sustentável e preparada para o futuro. A mobilidade, a infraestrutura, o saneamento e o turismo são pilares fundamentais dessa transformação. “Belém vai dar um salto de 30 anos em termos de infraestrutura e qualidade de vida”, afirma com convicção.

A cidade, que está se reinventando para ser um dos principais destinos do Brasil, não só será um marco para as discussões ambientais, mas também servirá como um exemplo de como grandes eventos podem transformar uma região e deixar um legado duradouro. Com uma população acolhedora e uma infraestrutura modernizada, Belém está pronta para brilhar no cenário internacional e se consolidar como um polo de turismo, cultura e sustentabilidade na Amazônia.
Segurança e integração
Com a expectativa de receber delegações de quase 200 países, Helder Barbalho anunciou a criação de um comitê integrado de segurança, unindo forças municipais, estaduais e federais, além da cooperação com equipes internacionais. “Queremos garantir que a COP 30 aconteça em um ambiente seguro e tranquilo, sob total controle das forças de segurança”, afirmou.
O governador lembrou que o Pará é um dos três estados brasileiros com redução contínua da criminalidade, resultado de políticas de segurança combinadas com ações sociais. As Usinas da Paz, centros de cidadania em áreas vulneráveis, são apontadas como exemplo de como políticas sociais podem transformar realidades e reduzir a violência.
Helder também fez questão de destacar o papel de uma gestão fiscal equilibrada para viabilizar tantos investimentos. “O Pará é um dos estados com as contas em dia e o maior nível de investimento público do país. Isso nos permite planejar e executar obras que transformam vidas”, afirmou.

Sobre a escolha da sede e a importância política do evento, o governador reforçou: “Belém precisa de gestores que acreditem na causa ambiental, que não sejam negacionistas. A COP 30 é um marco para o mundo e para o Pará. Precisamos garantir que esse momento histórico tenha continuidade e gere frutos duradouros”, pontuou.
Entenda como funciona a COP 30
As Conferências das Partes (COPs) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês) são o principal fórum internacional para tratar da crise climática. É composta por todos os países signatários e ratificadores do tratado e funciona como espaço para os governos negociarem metas e ações conjuntas para conter o aquecimento global, reduzir emissões de gases de efeito estufa e fortalecer a adaptação às mudanças climáticas.
Realizadas anualmente desde 1995 — com exceção de 2020, por causa da pandemia —, as COPs reúnem hoje negociadores de 198 países, além de representantes da sociedade civil, empresas, cidades e organizações internacionais.
Em 2025, o Brasil sedia pela primeira vez a conferência, sendo Belém a cidade escolhida para receber o evento. A COP3 marca um momento histórico não apenas por sua realização na Amazônia, mas também pelas inovações em sua estrutura e formato, que buscam ampliar o diálogo e a participação social no processo decisório global sobre o clima.
Embora mantenha uma estrutura básica desde sua primeira edição, o formato da conferência evoluiu para refletir os novos desafios. Hoje, a COP se organiza em torno de uma Presidência, uma diretoria-executiva, dos chamados Campeões do Clima, e de múltiplas arenas de debate e negociação.
Presidência e diretoria-executiva
A cada edição, um dos países integrantes da UNFCCC assume a presidência da conferência e sedia o evento. Em 2025, o Brasil exerce esse papel pela primeira vez. O diplomata André Corrêa do Lago, secretário de Clima, Energia e Meio Ambiente do Itamaraty, foi indicado para presidir a COP30 e atuará como mediador das negociações multilaterais. Ele tem a missão de conduzir os debates, mediar posições divergentes e facilitar acordos, representando o interesse coletivo do processo multilateral.

A Presidência da COP30 se organiza em quatro eixos principais:
• Cúpula de Chefes de Estado: realizada nos dias 6 e 7 de novembro, com a presença de líderes mundiais para discutir o futuro climático do planeta. Embora sem caráter deliberativo, o encontro define o tom político das negociações.
• Negociação: É o coração da COP, onde delegados de cada país, reunidos na chamada Blue Zone, negociam metas, mecanismos e compromissos internacionais.
• Agenda de Ação: Criada a partir da COP21 (Paris, 2015), amplia o escopo das conferências ao incluir iniciativas voluntárias de governos locais, empresas, investidores e sociedade civil. Na COP30, essa agenda terá 30 objetivos-chave, com grupos de ativação elaborando planos de aceleração para cada um deles — todos baseados nos resultados do primeiro Balanço Global (GST-1) do Acordo de Paris.
• Mobilização: A Presidência também lidera um Mutirão Global, voltado a engajar a sociedade e ampliar a consciência sobre a crise climática.
Complementando a presidência, a diretora-executiva da COP30, Ana Toni, secretária nacional de Mudança do Clima do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, é responsável por coordenar a articulação com a sociedade civil, fortalecendo o diálogo entre governos, organizações e comunidades.
Campeões do Clima
A UNFCCC nomeia, a cada ano, dois Campeões de Alto Nível — personalidades que atuam como pontes entre governos e sociedade. Eles mobilizam empresas, cidades, instituições financeiras e movimentos sociais para acelerar ações climáticas.
Como os mandatos duram dois anos, quatro campeões atuam simultaneamente: dois da conferência anterior e dois da edição em curso. Na COP30, o Campeão de Alto Nível será o empresário Dan Ioschpe, e a Campeã da Juventude do Clima, Marcele Oliveira, que tem como missão ampliar a participação de jovens nas decisões e políticas climáticas.
Inovações brasileiras
Para tornar a COP30 mais inclusiva e efetiva, o Brasil criou novas estruturas de articulação e escuta social. Entre elas, os Círculos, grupos temáticos liderados por ministros e compostos por representantes públicos, privados, comunitários e internacionais.
Esses Círculos têm o papel de mobilizar diferentes setores e apresentar propostas concretas à Presidência da conferência. Foram instalados o Círculo de Balanço Ético Global, o Círculo de Ministros de Finanças para o Mapa do Caminho de Baku a Belém, o Círculo de Povos, e o Círculo de Presidentes de outras COPs.
Outros órgãos de assessoramento técnico também foram criados: os Conselhos de Adaptação, Científico, de Economistas e de Inovação Tecnológica e Inteligência Artificial, formados por especialistas convidados para oferecer recomendações estratégicas.
Enviados especiais
Além disso, o Brasil nomeou Enviados Especiais — sete internacionais e 22 nacionais — que apoiam a Presidência no engajamento com diferentes setores e regiões, funcionando como pontos de contato e articulação. O número de representantes é o maior já registrado na história das COPs.
Com a realização da COP30 em Belém, o Brasil assume papel de destaque na governança climática internacional. A conferência será um marco na trajetória do Acordo de Paris, ao inaugurar um novo ciclo de compromissos globais baseados no primeiro Balanço Global.
Mais do que uma arena diplomática, a COP30 pretende ser um espaço de convergência entre povos, saberes e soluções — onde o mundo olhará para a Amazônia não apenas como símbolo de urgência, mas como território de liderança e esperança na luta contra a crise climática.


